Festas feitas por e para mulheres crescem e transformam lazer em espaços de acolhimento e pertencimento em Salvador

  • 13/06/2026
(Foto: Reprodução)
Organizadora da Festa Preciosa detalha como surgiu a ideia do evento Por muitos anos, mulheres lésbicas e bissexuais de Salvador tiveram poucas opções de lazer voltadas especificamente para elas. Em uma cidade conhecida pela efervescência cultural e pela vida noturna, encontrar espaços onde fosse possível se divertir, paquerar, dançar, assistir a shows ou simplesmente estar entre outras mulheres sem medo de assédio nem sempre foi uma realidade. Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar. Festas e eventos idealizados "por mulheres e para mulheres" têm ganhado espaço na capital baiana e ajudado a fortalecer uma cena sáfica que, segundo as próprias organizadoras, sempre existiu, mas por muito tempo permaneceu sem espaços próprios de encontro. Entre as iniciativas estão a "Festa Preciosa", criada em 2022; o "SapaBrega", que surgiu em 2025, e o "Sapaokê", evento que une karaokê e cultura sáfica e terá nova edição em 20 de junho, na Casa da Felicidade, na Barra. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia Além delas, surgiu nesse cenário o "Forró Sapatão", realizado na Casa da Mãe, no Rio Vermelho, com a "Banda Cheiro de Couro". A última edição aconteceu na sexta-feira (12), em celebração ao "Dia dos Namorados/das/des". Edição da Festa Preciosa, em Salvador Daniel Cerqueira Embora tenham formatos diferentes, os eventos compartilham um objetivo comum: criar espaços onde mulheres possam se sentir acolhidas, representadas e seguras. Festa Preciosa aposta em acolhimento e segurança A produtora cultural Marcela Silva disse, em entrevista ao g1, que a ideia da Festa Preciosa surgiu em 2022, durante uma conversa entre amigas. Na época, ela notou que muitas mulheres estavam deixando de frequentar festas e eventos noturnos. Em vez disso, preferiam encontros em casa, longe de situações de constrangimento, assédio ou violência que frequentemente enfrentavam em espaços com homens. “Eu percebi que minhas amigas estavam fazendo coisas muito mais em casa. A gente não tinha uma liberdade de estar nos eventos sem ser tocada, atacada, assediada de alguma forma”. Preciosa foi criada por falta de espaços seguros para mulheres Foi então que surgiu a proposta de criar uma festa pensada por mulheres e para mulheres. A primeira edição aconteceu durante a Copa do Mundo de 2022, no espaço Colaboraê, em Salvador, em parceria com a cantora Ju Moraes e outras amigas de Marcela. Segundo ela, tudo foi construído de forma bastante improvisada. Sem patrocinadores, experiência naquele segmento específico e com poucos recursos financeiros, as organizadoras apostaram apenas na força da ideia. A expectativa era reunir cerca de 200 pessoas, mas o resultado surpreendeu. A casa lotou, houve fila na porta e muitas mulheres não conseguiram entrar porque o espaço já havia atingido sua capacidade máxima. Marcela Silva disse, em entrevista ao g1, que a ideia da Festa Preciosa surgiu em 2022, durante uma conversa entre amigas Rafaela Paixão/g1 Desde o início, a preocupação da organização não era apenas se restringir ao público feminino, mas pensar em todos os detalhes da experiência a partir das necessidades das mulheres. Por isso, questões aparentemente simples ganharam atenção especial. Os banheiros, por exemplo, passaram a contar com absorventes, medicamentos, maquiagem e outros itens de higiene pessoal. Segundo Marcela, a limpeza dos espaços também tornou-se uma prioridade, a partir de experiências pessoais. "Uma premissa básica: um banheiro bem limpo. A mulher no mesmo lugar que o homem, no banheiro, já era uma parada que me incomodava pessoalmente", afirmou. A organizadora contou que um dos retornos mais frequentes recebidos do público está justamente relacionado à estrutura dos banheiros. "Muitas mulheres falam sobre isso. Sobre chegar lá e ter todo um aparato para você se organizar e voltar para a festa bonita de novo". Edição da Festa Preciosa, em Salvador Daniel Cerqueira Outro diferencial da Preciosa é a composição da equipe. Segundo Marcela, toda a produção é formada exclusivamente por mulheres. "Não existe homens na equipe. Então, a gente já não tem um olhar masculino dentro da festa". Ao longo dos anos, a proposta também passou por transformações. Inicialmente pensada como uma festa voltada para mulheres lésbicas, a Preciosa ampliou sua atuação e passou a se apresentar como um espaço de acolhimento para mulheres em geral, de qualquer orientação sexual. Além disso, a festa, inicialmente permitia a entrada de homens, mas, na próxima edição, que acontece neste sábado (13), no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), será autorizado apenas o acesso de mulheres. “A gente não está nesse lugar de uma festa lésbica. A gente está numa festa de acolher mulheres que estejam num lugar que elas não vão ser assediadas, atacadas, se sintam desconfortáveis". Para ela, o sucesso da festa está ligado menos às atrações e mais à experiência proporcionada. "A gente não vende a banda. A gente vende o que a festa é. Esse sentimento de liberdade, de pertencimento, de respeito". Além dos eventos presenciais, a Preciosa passou a investir em ações de conscientização e acolhimento. A iniciativa mantém um grupo, onde são compartilhadas informações e debates sobre temas relacionados à saúde física e mental das mulheres. "A gente tem esse grupo onde a gente solta previamente todas as informações e faz esse trabalho, uma limpeza da saúde mental", afirmou a produtora cultural. O crescimento da festa também abriu portas para novos projetos. Segundo Marcela, já existem conversas para levar a Preciosa para outros estados. Embora as negociações ainda estejam em andamento, ela acredita que a expansão pode acontecer em breve. SapaBrega e o fortalecimento do cenário sáfico SapaBrega e a vontade de fortalecer a cena cultural lésbica Enquanto a Festa Preciosa nasceu da busca por um ambiente mais seguro para mulheres, o SapaBrega surgiu a partir da vontade de fortalecer a cena cultural lésbica em Salvador. A cantora Isabel Gonçalves contou que a ideia começou a tomar forma após uma temporada em Los Angeles, nos Estados Unidos. Durante o período em que viveu na cidade, ela ficou impressionada com a quantidade de eventos voltados para mulheres lésbicas, bissexuais e outras identidades da comunidade LGBTQIA+. Quando retornou a Salvador, decidiu criar algo semelhante. A proposta ganhou força em 2025 ao reunir artistas que já faziam parte de sua rede de amizades e de trabalho. “Eu pensei: 'A gente já conhece tanta potência de mulher lésbica, por que a gente não se juntar?'”. A ideia rapidamente ganhou forma e uma das primeiras pessoas convidadas para integrar o projeto foi a cantora Bruna Barreto, ex-The Voice que divide o palco com Isabel. Isabel contou que o plano de associar o universo sáfico ao ritmo musical surgiu durante conversas entre ela e Bruna Barreto, que já interpretava canções do gênero em seus shows. Embora não tivesse uma trajetória ligada ao gênero antes da criação do projeto, Isabel diz que a proposta acabou se consolidando naturalmente dentro da identidade da festa. Segundo ela, o conceito do SapaBrega não está ligado apenas ao brega. A proposta também dialoga com uma estética afetiva e popular, incorporando artistas e músicas que fazem parte do imaginário romântico de diferentes gerações. Para a organizadora, essa escolha também dialoga com a retomada da popularidade do gênero nos últimos anos. "É um ritmo também que está em alta, não é? É uma coisa que teve um boom", avaliou. Cantora comenta sobre a ideia de associar universo sáfico ao brega Hoje, além de festa, o SapaBrega também funciona como banda e movimento cultural. A formação musical é composta exclusivamente por mulheres, uma escolha considerada estratégica pelas organizadoras. Apesar do foco nas mulheres, a festa não restringe a entrada de outros públicos LGBTQIA+. Segundo Isabel, a decisão busca equilibrar acolhimento e inclusão. A organizadora acredita que Salvador ainda possui uma grande carência de espaços permanentes voltados para mulheres lésbicas. "Uma das grandes metrópoles do Brasil não tem um bar 'sapatão'. São Paulo tem vários. Quem sabe um dia o SapaBrega não vira um bar também?", projetou. Atualmente, os maiores desafios para manter o projeto são os custos de produção e a falta de espaços adequados. Mesmo assim, o grupo pretende ampliar a atuação. A meta, conforme estima a cantora, é realizar ao menos uma edição mensal e, futuramente, transformar a marca em outros formatos culturais. Entre os objetivos, está a criação de um bloco de carnaval. Isabel acredita que o surgimento de novas iniciativas no cenário sáfico representa uma conquista coletiva Rafaela Paixão/g1 LEIA TAMBÉM: Jornalista lança em Salvador livro que reúne desabafos sobre relações de filhos gays e pais heterossexuais de vários países Bahia bate recorde de casamentos homoafetivos desde que ato foi regulamentado no Brasil Diversidade sexual: 204 mil baianos se declaram homossexuais ou bissexuais, aponta IBGE Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/06/13/festas-feitas-por-e-para-mulheres-crescem-em-salvador.ghtml


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